sábado, 21 de dezembro de 2013

Do avesso

Será que eu posso me considerar uma pessoa de sorte por te conhecer?
Além de todos os outros fatores desse mundo.
Por ter o privilégio de, entre tantas pessoas que passam e viram a cabeça e desviam o olhar, você me virar do avesso. E não se importar com a etiqueta gasta, os bolsos pendurados, as costuras tortas, as linhas soltando, o reflexo desbotado do lado de fora...
Eu poderia nunca ter conhecido meu avesso. Poderia ter passado horas, dias, meses, anos só te olhando. Imaginando como seria sua voz, seu sorriso ao olhar pra mim, projetando uma intimidade. Seria tão lindo, épico, invejado, idiota. Poderia, mas não fiz. Preferi arriscar e me apresentar, arriscar e te conhecer. E descobri que não havia risco nenhum nisso. Teria sido um risco (ou um rabisco todo) não tê-lo feito. E ter que passar pela multidão imaginando como seria...
Sorte nossa então, pela sua existência cruzar com a minha.


38 Special - Somebody like you

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Meu eu

Outro dia meu eu-lírico virou um eu-mímico. 
E passei a não me dirigir a palavra. 
Éramos gestos, movimentos, olhares dispersos.
Tentativas falhas de humor silencioso.

Batia contra a parede de vidro invisível
Enquanto a tinta branca do rosto escorria empurrada pelas lágrimas

Era um cruzar de braços
um fechar de olhos
um engolir de saliva
Discussão presa na garganta
que sobrevoava os fios rebeldes do cabelo ondulado
como se silêncio fosse apenas ficar calado
Amuado.

E, de pensamento atormentado
linhas certas, texto errado
retomou com cuidado
a rima que estava de lado

E num grito sufocado
dedos enluvados
braços esticados
olhos inchados
estávamos separados.


The Verve - Lucky Man

sábado, 7 de dezembro de 2013

Matemática

Um coração.
E toda aquela história de procurar outro pra ser feliz.
Acha, divide o seu e completa com outro.
E fica com, vejamos, metade seu e metade de outro.
Ou seja...
Um coração.
A não ser que me engane
A não ser que tenha feito conta errada.
Eventualmente ele se parte, quebra, dissolve, 
é esmagado pela devastadora dor do não, do 'não mais', do acabou.
E lá vai dividir de novo
E pegar a sua parte original 
(agora suja, mal cuidada, mal amada, destruída)

Então me façam entender
Corações em dois
partidos ou compartilhados
são sempre divididos.
É isso?



Crowded House - Four Seasons in one day

domingo, 1 de dezembro de 2013

Incomplet_

Saia da minha cabeça ou entre na minha vida!
Não me venha com meios termos. Se for assim, melhor nem sermos.
E se não vier por inteiro. Nem tire minha cabeça do travesseiro


Se conforma com mais ou menos, quem sonha sonhos pequenos.


E eu sonhei com você.


Mas perdoe o devaneio, é que você não veio
Talvez eu não tenha dito antes, mas parecíamos tão distantes
E passei a te querer perto, como tudo que é certo
Pra tudo, pra nada, por hoje, pra sempre.
Perdi coragem, oportunidade, razão

e então…



sábado, 30 de novembro de 2013

às voltas

Eu e você nem sempre somos nós
aliás, nem sempre somos... eu e você de fato
podemos ser outras pessoas
em outro tempo, outro retrato
ou outras pessoas podem ser a gente
imperceptivelmente
eu posso ser você
você pode ser eu
num piscar de olhos
ou num fechar de olhos,
despretensioso ou proposital
e, em todas essas idas, paradas e vindas
em todos esses nós apertados
de desencontros encontrados
podemos ainda, nunca sermos nós.



domingo, 24 de novembro de 2013

Doação.

Existe bazar, leilão
tantos tipos de comercialização
e a gente ainda insiste em, simplesmente, dar o coração

Há tantos passando fome
gente sem casa, sem nome
que não se farta com o que se consome
quando ganhado de bom grado
sem ser ligeiramente cobrado

Não há valor no que se recebe
se não for uma troca breve
em centavos, parcelados, um doze avos
escambo ou outros valores reais
pague menos, leve mais

Propaganda enganosa
de noite maravilhosa
vida gostosa
mundo cor de rosa

Há desconfiança no que vem de graça
tão certa como tudo que passa

Mas a gratidão é um pagamento
que não sai do bolso
que não solicita senha sequer
como o brilho das moedas esquecidas num bueiro qualquer



quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Nem tudo é

Se eu disser sim
O que vai acontecer?
Vai dar vontade de te ver
Hoje, amanhã e no dia seguinte?
Ou quem sabe na próxima vida
Alguma coisa vai mudar
Dessas fáceis de notar?
A gente vai poder voar,
O mundo vai parar,
Vou aprender a te gostar? Será?
Vai ter beijo jogado de longe
Cama bagunçada
Promessas extraordinárias?
E se eu disser não?
Não me diga que vai ter briga?
E fazer as pazes com macarrão
Boliche, música, sorvete com cereja.
Porque nem tudo é sexo
Nem tudo é beijo na boca
E mesmo que seja
Como acreditam por aí
Que tudo é melhor aos pares
Olhos, mãos, amores
As cores são muitas e o sonho pode ser de um só
Nem sempre a felicidade é assim
Fruto de um simples sim