domingo, 4 de fevereiro de 2024

Quebrada

Tenho 1,72m de altura. E isso chegou a afetar minha postura. Mas talvez você já tenha me visto em outros tamanhos e formatos. Do tanto que já me dobrei, me espremi e me quebrei pra encaixar onde não tinha espaço. Às vezes me arranjava num cantinho, passava anos batendo à porta de algum coração. De leve. Não queria incomodar. E é claro que não conseguia entrar. Ninguém quer gente que se humilha. Nem como par, nem como família. Sempre fui daquelas que dão passagem pra todo mundo nas calçadas, mesmo que tenha que pular uns canteiros, desviar de umas obras abandonadas. Pode cortar fila. A sua pressa é mais importante que a minha.

Tem dia que dá vontade de gritar, confesso, mas vai que atrapalha alguém no processo. Até porque, se eu jogar tudo pro alto, vou ter que catar. Isso vale para copos e corpos. E não adianta chorar. Aí tem que juntar tudo e colar peça por peça. Lembrar que ficam encaixes tortos, marcas e umas frestas. Ali passa luz, vento, som e dor. E, se você reparar bem, daria pra passar um pouco de amor. Mas tem coisa que o amor não se presta.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

Tô escrevendo mal e isso é bom

Sempre tive um puta orgulho das coisas que escrevo. Mas ultimamente tá tudo tão mal escrito. Não vou apagar porque é parte da minha trajetória, mas os 3 últimos parece que são notas aleatórias que esqueci em algum arquivo. Tudo misturado, descuidado, sem uma estrutura, um desfecho gostoso, com sabor de quero mais. Mas acho que sei o que tá rolando.

De 2000 a 2009 participei de alguns concursos literários. 2000 me rendeu um prêmio, entregue na prefeitura, primeiro lugar da escola. Era uma escola pequena, e só as oitavas devem ter participado, não me lembro. Era um texto objetivo, sobre o perfil da mulher do ano 2000. Saí até no jornal, com o uniforme horrível da oitava série e um batom prateado, mais horrível ainda, mas que me colocava bem inserida na galera, no auge dos meus 13 anos.

Em 2003 eu cursava o último ano do ensino médio e a minha escola lançou o primeiro concurso de textos entre os alunos. Fiquei em segundo lugar na categoria poesia e o título da minha obra era "mágoas retratadas". À essa altura eu já tinha percebido que as desilusões da vida me inspiravam mais do que momentos felizes. Inclusive, era sobre isso que o poema falava. Que desilusões, Priscila? Eu só tinha 17 anos no final de 2003.

Mas tudo isso fazia sentido, no final das contas. Quando tô mal, remoendo, lamentando, indagando, toda a dor se transforma em verso, pra tirar de mim e doer menos. Quando tô feliz, tô só vivendo e evito perguntar até que hora vai dar errado, porque não tô acostumada com as coisas dando certo. Coisa de ser humano.

Leia final feliz

São 2h da manhã e eu não consigo dormir porque tô com dor. Aftas e dor no ouvido. Ou manifestações físicas de estresse emocional, como sugeriu o psicólogo. 

Peguei um livro do Vargas Llosa que li em 2013. Tá até com o selo e a data da compra. Pelo visto, me dei de aniversário. Por algum motivo lembrei que o autor era político e fui pesquisar de que lado. Peguei outros livros de outras autoras. Dois para reler e um para ler pela primeira vez. Li as orelhas e voltei para o google "livros com final feliz". Foi uma pesquisa legítima, visto que o último final que tive foi triste e doeu até recentemente. Entre "o amor nos tempos do cólera" (que li e não me lembro), "p.s. eu te amo" e, pasme, "perfume", ainda aparece "Romeu e Julieta". Aparentemente, até o conceito de final feliz é muito pessoal.
Sem mentir, a primeira imagem que surge na cabeça quando se fala em final feliz é um casal junto, certo? Aí quando a gente se realiza em tantos outros pontos da vida e não faz parte de um casal, vem a frustração. Mas isso foi só pra refletir, porque na ficção eu continuo sendo a massa que se derrete com um casal fofo. Uma eterna adolescente iludida.

Afeto assinatura

 

Tem um vídeo na internet que fala sobre as pequenas demonstrações de afeto e o cara relata uma relação que teve com uma menina que mordia ele. E essa era a forma que ela tinha de mostrar o tanto que gostava dele.

Eu vim de experiências com demonstrações tímidas direcionadas à mim, ou talvez eu só quisesse um pouco de carinho em público, algo que me fizesse sentir mais segura e assumida em uma relação.

Comecei a me perguntar se eu tenho uma demonstração que seja muito minha, como uma assinatura, que me fizesse inesquecível.

Mas pra quê, né?

Acho que ainda tô machucada. E meu psicólogo tem razão. O conceito de amor tá bagunçado pra mim porque a minha maior experiência com amor não terminou como eu gostaria.

Seguimos.

terça-feira, 30 de janeiro de 2024

Música de casamento

Recuperei minha conta do spotify, né? Aí achei essa playlist, perfeita para a TPM, que chama "10 years of heartache" (10 anos de mágoa / melancolia / dor de coração) e isso me fez pensar em umas coisas aqui...

Ficar com quem te admira, te respeita e te apoia é um dos mais comuns incentivos encontrados em citações na internet, nas mais diversas versões. Mas e quando a gente confunde manipulação com admiração, respeito e apoio? Ou qualquer outra coisa. O fato é que às vezes parece que a gente esquece o real conceito de algumas palavras enquanto uma situação, dessas fortemente emocionais, tá acontecendo.

Isso me faz lembrar da enorme quantidade de músicas sobre traição e sofrimento tocadas em casamento. E na nossa base social de que "música de casamento" precisa, entre muitas aspas, ter uma certa "melodia de amor", não importando a mensagem. Ao mesmo tempo que a gente têm apego à alguns conceitos, a gente destrói outros tão facilmente. Até o não padrão é um padrão.

domingo, 31 de dezembro de 2023

Você precisa mudar o seu pensamento

Esse texto tem umas ironias.

Devia ter parado no primeiro "você precisa mudar seu pensamento". O que vem depois disso não pode ser amor. Mas eu quis pagar pra ver. Eu não, ele. Que foi pagando muita coisa porque "não era todo mundo que tinha essas oportunidades" que ele me proporcionava. E o meu dinheiro era pouco e muito difícil de ser ganhado, né? Colei nele, que "sabia das coisas" e fui vivendo, aconchegada com tantos "você é ótima", "me preocupo com você" e "melhor que a gente não tem", que cheguei a pensar que um dia o "eu te amo" viria também. Não veio. Aí eu também parei de falar. Tava me sentindo muito idiota em chamar de amor alguém que nem me chamava pelo nome. Nunca me senti suficiente pra ele. Sim, tinha beijo na boca, o melhor abraço e era tão bom dormir junto, nas raríssimas vezes que acontecia. Ele fazia questão de estar junto em tudo, e com ele eu não precisava marcar horário, então tudo bem, né? Não lembro dele com tesão em mim, daquele jeito gostoso que a pessoa te olha mordendo o lábio ou te encoxando enquanto você cozinha, sabe? Mas a vida não é só sexo, gente. Vocês que superestimam isso, eu hein? Com o tempo eu também parei de sentir necessidade disso e matava a vontade sozinha. É sobre tirar a "responsabilidade" do outro. Não se engane, eu fui muito feliz. Acho que a gente foi, de verdade. Mas não poderia ficar te segurando pra sempre, cobrando algo que deveria ser espontâneo. E como ninguém é obrigado a nada, a coragem pra terminar veio. Ou um medo disfarçado de coragem, porque no fundo eu queria estar errada e ouvir você responder qualquer coisa, lutando pela gente. Nunca vi alguém aceitar tão fácil uma decisão que eu demorei anos pra tomar, chorando a cada segundo. Realmente, existem dois tipos de pessoa. Eu sou a que precisou mudar o pensamento.

Acabei de ler que despedidas não são confortáveis, mas talvez nem a permanência seja. Eu demorei 2 anos até criar coragem pra terminar um relacionamento de 7 anos porque era bom ter companhia e eu gostava dele. O amor é tão egoísta. E foi esse fio de coragem que soltou a gente do fracasso. Cada um teve seu jeito de lidar. E, por algum motivo, pensei que eu fosse fazer falta ali. Não fiz. E isso doeu mais que tudo. Conheci e me envolvi com tanta gente legal, que não me cobrou nada, não me colocou pra baixo e nem tentou controlar. Nada preencheu a (falsa) sensação que eu tinha com ele (por enquanto). Parece que eu não quero ficar bem, mas é preciso viver o luto, com ênfase no viver. Eu sei que tô monotemática, mas isso tem me ajudado a melhorar, esquecer ele e lembrar de mim.