domingo, 21 de julho de 2013

Embriaguez

A madrugada embriaga. E os pensamentos fluem como aqueles que descem com a água do chuveiro. Por que ele? Por que não? E entre o medo da sorte ou do azar, a gente acaba pensando que gosta da solidão. Parece? Talvez. Então talvez eu goste. Mas se a solidão é a sensação de vazio, como alcançá-la de cabeça cheia? Esvaziar. Colocar para fora. Palavra, som, suor, lágrima. E, se houver resposta, já não há mais solidão. Só escuridão. Quem sabe, recordação. Ou não. Hábitos... de vestir, de comer, de pensar que a companhia é essencial. Em corpo, alma, mãos dadas, eu-te-amos, só-vou-se-você-for... Não é por mal, o mundo prega, cabe a nós bater ou não esse martelo e arriscar a probabilidade dos calos nas mãos ou massagem nos pés. Calo é resistência. Massagem é vulnerabilidade. Pontos de vista. Ou invista nos pontos.
Não dá pra viver vicariamente.


sábado, 22 de junho de 2013

ManINfesto

Paz: estado de calma, tranquilidade. Sem conflitos, sem discórdias.
Parece simples de entender, de escrever, mas tem gente que erra ainda assim. Na grafia, na ação, na intenção... O branco no fundo dos cartazes, dos muros, das vestes. O branco da paz na cabeça na hora da eleição. Com manchas sobrepostas, de tinta, de suor, de sangue. Luta pela paz. Soa tão contraditório. Brigar para não ter briga. Não se pode mandar da cabeça de todos mas pode cuidar da própria cabeça.
Se tomam conta da vida dos outros, são intrometidos. Se tomam conta das próprias vidas, são egoístas. Ser humano exige muito. Ou nós é que esperamos pouco?



quinta-feira, 20 de junho de 2013

Sem voz

Dizem que a voz do povo é a voz de Deus. Mas alguém já ouviu alguma das duas em questão? Digo, escutar mesmo. Porque ouvir é fácil. Falar também. E o povo quer dizer... e ser escutado. Não sabemos dizer com precisão se é grave ou aguda, ou até mesmo se há resposta. Quando criança, éramos vítimas daquelas brincadeiras em que tapavam nossos olhos para que adivinhássemos quem estava atrás da gente. E era difícil errar, mesmo com tantas imitações. As risadas denunciavam.
Hoje, com identificadores de chamadas, não há mais brincadeira. Ao primeiro toque, a surpresa acaba, a chamada é curta, a voz é esquecida. Não sabemos mais com quem estamos conversando, se não olharmos no visor. É a tecnologia atrofiando nossos sentidos. Tirando o arrepio da descoberta de quem está do outro lado da linha.


segunda-feira, 17 de junho de 2013

Vitrine

Na nossa idade parece que tudo que acontece é culpa do álcool, dos hábitos alimentares, do coração despedaçado, do resultado do jogo, do final do filme... Culpa das nossas não resistências às tentações, das nossas insistências em algo que tem tudo para não nos pertencer. São tantos anúncios, placas, convites à soluções, promessas de fim do desespero... E nos rendemos, facilmente. O mundo é uma vitrine sem preços afixados. Seus produtos estão ali, à mostra, com a etiqueta para dentro e o brilho para fora. Não sabemos os valores, fingimos não querer saber e escolhemos pela cara, pelo arrepio que provoca, pelo tom. Os cartões não tem limites (por hora) e as faturas podem demorar a vida toda para chegarem (acumuladas). Porque ninguém vai atrás das dívidas, elas é que são taxadas de perseguidoras pelos que as provocam. Mas todos querem descontos, bônus, chorinho e ganhar na megasena... Todos tem o sonho da casa própria mas deixam o amor próprio de lado. Lincoln não poderia ter acertado mais: "...se quiser por à prova o caráter de um homem, dê lhe poder".



sexta-feira, 31 de maio de 2013

De segunda

Não devemos sair de segunda, força o motor. Até podemos, se estivermos na descida. Mas nem sempre estamos, por mais que pareça que a vida esteja nos empurrando para baixo ou que tem alguém puxando para o fundo do poço. Além disso, a primeira prepara. Assim como o domingo preguiçoso antes de uma detestada segunda feira. E ninguém gosta da segunda por ser o primeiro dia útil, o que faz a terça mais agradável. O segundo lugar não é o mais almejado mas tem a graça do pódio, sem a responsabilidade da liderança. O segundo filho costuma ser mais esperto porque aprendeu com as cabeçadas do primeiro. A segunda panqueca sai mais sequinha e uniforme, assim como todas as receitas feitas pela segunda vez... A primeira é a teoria, a magia.. a segunda é o desenrolar da trama, a realidade. Uma depende da outra. E imagine, se a primeira é inesquecível, tente a segunda. E outra, quem disse que inesquecível é sempre bom?



quinta-feira, 30 de maio de 2013

Apenas...

É o seu cheiro que está no meu corpo, por menos que eu queira sentir. Respiro fundo sem saber se quero me sufocar ou apenas conseguir um pouco de ar. É tanta coisa, tanta coisa, tanta coisa... prefiro não pensar. Não imaginar como deve, seria ou poderia ser. Nem em todos os obstáculos (que soam como desculpas) entre isso ou aquilo. Mas que são meus. Inspiro. Me afundo no seu peito, no conforto de sermos um. E você me recebe de corpo quente e pergunta coisas que nem eu sei sobre mim. Seus olhos ao longe (e que eu insisto para que mirem os meus), suas mãos nas minhas. Todo aquele bucolismo. Curiosidades, vontades, descobertas. Suspiro. Um dia seu cheiro não estará mais no meu corpo e você não vai mais saber o que perguntar para mim. E não importa, não é uma questão de necessidade, é só...que naquele momento, eu e você fomos nós. Expiro.


quarta-feira, 29 de maio de 2013

Análise Simpática



Você aí, sujeito simples, que busca intensamente um verbo de ligação, um artigo definido para dar sentido ao seu predicado verbal. Objetos diretos são interessantes, audaciosos mas adjetivos, vocativos e hipérboles podem enganar. Atenção às metáforas, sua complexidade pode soar traiçoeira mas elas sabem muito bem o que querem dizer. Não se apegue à anáforas e aliterações, nem todo mundo tem paciência para elas. Nada como se bastar... e ainda assim não se envergonhar em pedir revisão. Se aventure (fugere urbem), sobreviva ao mal do século! Atravesse gerações conforme elas acontecem. Fisicamente também. Pratique o discurso direto; isso pode poupá-lo de certas interpretações. Leia glossários, rodapés, epílogos. Se existem, há motivo. Não se apaixona sem conhecimento. O saber faz bem, se não fizer, não chega a ser amor. Não há mal em imaginar... nem em soltar a corda do balão para ambos se encontrarem no futuro do presente.