terça-feira, 24 de janeiro de 2023

Proibido

Cuidado com o que deseja
Mesmo que esse desejo seja
Um constante clichê popular
"na volta a gente compra"
Sabendo que não vai voltar

Há tempos eu precisava de inspiração
e você se encaixou tão perfeitamente nessa necessidade
(como eu gostaria que meu corpo se encaixasse no seu)
E esse poema é sobre tesão
com uma pitada de romance e vontade
(se, por acaso, você ainda não percebeu)

Eu falo: não me provoca!
mas não tem jeito não
só de cumprimentar
meu corpo desloca
meu olhar não foca
e você me tem na mão

Se depender de mim
isso nem chega aos seus ouvidos
(pelo menos não no momento)
todas as grandes loucuras
dos meus sonhos mais proibidos
que a gente faz no meu pensamento

Há vagas

Quando há vagas
emprego, congresso, educação
concurso, reality show, e até na fecundação
sempre tem uma competição
e eu, que não jogo nem imagem e ação
fico observando sem arriscar
mas quem não participa
também não corre o risco de ganhar

ruim é quando não dá pra escapar
quando se quer um lugar
precisa entrar e fazer sacrifícios
ossos do ofício
brigar por carteira de cliente
pra fechar o melhor negócio
o que tem de errado em querer
um pouquinho a mais de ócio?

fazer o que se ama
não deveria ser tão julgado
mas a gente deita na cama
com a culpa do nosso lado

eu queria saber quem inventou
que passar a vida trabalhando
era jeito bom de viver

será que ninguém avisou
que todo mundo só fica esperando
o expediente acabar pra beber

terça-feira, 8 de novembro de 2022

3x1

Existe um hábito horrível que eu tento me livrar desde sempre. Acho que é comum no ser humano, mas me incomoda demais.

Ontem aconteceram coisas muito legais:
- fechei um trampo que tava esperando.
- recebi dos extras do final de semana.
- tava animada com o resultado de um evento que ajudei a produzir.

E aí tinha também o caso de um boleto que a administradora de condomínio me mandou errado (era pro proprietário) e eu paguei, no lugar do condomínio. Como eles sempre me mandam duplicado, eu já acostumei pagar um só. Só que dessa vez eram diferentes. O outro atrasou e gerou encargos. De sessenta reais! Que eu não tenho.

Vou conversar com advogada, tentar resolver sem chorar (difícil) e tal.

3 coisas boas x 1 coisa ruim.
Adivinha qual eu passei o dia remoendo?

Fica uma briga terrível na minha cabeça.

De um lado: eu tentando fazer um exercício para me concentrar na parte boa, tudo anda melhorando na minha vida, contemplada num edital, oficina marcada, feirinhas rolando, trampos novos de arte, reconhecimento.

Do outro lado: boletos. E eu chorando igual uma criança por não ter nem o dinheiro do aluguel esse mês.

A Priscila de 10 anos tá tão desapontada com essa de 36. 

É a primeira vez na vida que eu não tenho uma reserva, que eu apavoro assim.

Tudo que eu tenho pronto de produto não vende, mesmo com preço de prejuízo. Faz tempo que não tenho lucro com papelaria. Tenho dó de cobrar, acho que ninguém vai pagar. É novembro e não lancei planner ainda. Tudo desandou. 

Será que ainda vale a pena continuar a perseguir o sonho?

Ou a solução é voltar pra CLT e ser infeliz saindo cedo de casa e sem tempo pra mais nada?

Eu quero acreditar que dou conta da minha escolha, mas tem dia que não queria precisar enfrentar nada disso.

quarta-feira, 14 de setembro de 2022

Força

 Hoje eu te levei mais uma vez pra terapia, prima.

Com a outra psicóloga eu acho que não cheguei a falar sobre você, eu não tava pronta. Com esse já é a segunda vez. Mas eu vou mudar esse texto pra terceira pessoa, porque prefiro conversar com você em sonho, se você quiser qualquer dia. Prometo que vou tentar não me assustar, porque eu ainda assusto fácil, sabe?

Recomeçando...

Dizem que a família que a gente escolhe também é família. E foi assim que eu tive uma prima que não era de sangue, mas era de coração. A gente tinha mesmo um tio em comum. Sangue dela, que foi casado com minha tia, sangue meu.

A gente tinha uns 4 anos de diferença, quase redondinhos, pois duas leoninas de julho. Até namorados com o mesmo nome de velho a gente arrumou na mesma época! Uma pessoa que eu admirava, mas não queria ser igual. (exceto pela alegria dela, pqp). O que funcionava pra ela sempre foi incabível pra mim. Ela era adulta e eu inconformada. E olha que a advogada era ela!

Ela queria cursar turismo e acabou se formando em direito e prestando concurso porque ~ na família já tinha meio caminho andado, escritório, advogados, promotor ~ Eu tava nesse lado da família e não fiz direito. E ela ter feito isso, me dá mais forças até hoje do que ela pode imaginar.

Com 29 anos, um concurso recém prestado, indo encontrar o boy italiano, ela teve umas complicações de saúde no aeroporto de Roma e nunca mais voltou pra gente. Eu tinha acabado de sair do trabalho quando soube, parei na casa da minha ex sogra, no meio do caminho, e chorava que nem uma criança. Ela foi sem nunca ter feito o que queria.

Talvez ela até tivesse pegado um gosto pela outra área, porque eu nunca vi aquela menina triste, nunca! Mas todos os dias, até hoje (faz 12 anos) eu penso nisso. E ainda prefiro passar todos os perrengues que passo pra me manter com pequenas doses de felicidade dia a dia, do que voltar pra uma CLT, ter mais "estabilidade", ser triste todos os dias e ter pouco tempo de felicidade programada.

Ela me ensina até hoje. E eu sinto tanta saudade.

sexta-feira, 22 de abril de 2022

Aceita

Por que algumas pessoas parecem ter dificuldade em aceitar que a gente tá bem do jeito que tá?

Desde os meus 10 anos eu sonho em morar sozinha. E é como se eu tivesse vivido outras vidas até esse sonho realizar.

Em uma dessas vidas eu parecia uma pessoa animada, ativa e sociável. Eu também bebia. Era um jeito legal de esperar realizar o sonho.

Em outra dessas vidas, vivi um romance do fundo da minha essência. Teve uma em que eu tinha pseudônimos e rimas. Uma viciada em séries de drama. Uma que fazia festas temáticas.

Em todas eu tinha queixas.

Agora eu não tenho mais. A sensação de uma realização, por mais perrengue que acompanhe, é muito boa.

Ouvi de uma pessoa que eu me contento com pouco. Talvez ela não tenha realizado nenhum sonho ainda pra entender.

Hoje lembro com saudade das outras fases, mas não gostaria de estar vivendo nenhuma delas. E não trocaria a minha vida pela de ninguém.

Não é um Tutorial

Como lidar e como dar conta
não é um tutorial
de um canal
que a gente assiste, aprende e monta

É definir e focar na prioridade
e não se comparar demais
porque a verdadeira realidade
não é que tá nas redes sociais

Abrir mão não é só deixar de ir em balada
É fazer o necessário pra não faltar nada
Cancelar uma assinatura, trocar academia por caminhada
Entender que a vida vai ficar apertada

Aqui, por exemplo, não tem airfryer, micro-ondas, televisão
nem máquina de lavar, e eu não sinto falta, não
imagina o meu questionário sócio econômico
seria trágico, se não fosse cômico

Isso, na visão de quem se incomoda
e não respeita minha decisão
Eu não reclamei que tá foda
E nem pedi um tostão

Cada um sabe até onde aguenta
onde a corda arrebenta
mas, se eu puder dar uma sugestão
vê se não inventa
E não aceita julgamento em forma de opinião

segunda-feira, 18 de abril de 2022

Panelinha

Viver em sociedade faz a gente buscar um pertencimento, uma coisa nossa de querer entrar numa panelinha e se sentir acolhida. Eu sempre quis juntar todas as panelinhas que participei na vida. Apresentar as pessoas, pra virar tudo um panelão, daqueles que a gente vê no google quando digita "paella". Ou uma mesa de bolo de aniversário de cidade.

Há praticamente um mês, dia 19 de março, foi dia do artesão e eu li por aí uma homenagem interessante, que terminava em "você tem orgulho de ser artesã ou fica inventando nome diferentão pra descrever o que você faz?". E percebi o tanto que eu (ainda) invento. De fato, eu trabalho como designer gráfico ainda. Mas a ideia de fazer artesanato como minha profissão era como se eu tivesse graduado em vão e tivesse dado errado na vida.

Eu sempre conto por aí, inclusive na terapia, o quanto participar de feiras me fez abrir os olhos pra isso. Ali tem tanta gente formada em várias áreas, que escolheu fazer o que faz. Não é as mil maravilhas, mas o sentimento de pertencimento me fez querer estar naquela panelinha em fogo brando, e perder um pouco a vergonha.

Vou trabalhando isso até dar orgulho.

É duro quebrar construções que a gente tem desde sempre.